Resumo: Este artigo pretende fazer uma breve leitura de “p – pessoa”, poema da autora italiana contemporânea Maria Grazia Calandrone. Nesta leitura também será discutida a relação entre as imagens poéticas construídas pela autora e o conceito de experiência proposto por Jorge Larrosa no primeiro capítulo do livro Tremores: escritos sobre experiência
Palavras-chave:Maria Grazia Calandrone. Experiência. Memória. Ressignificação.
Abstract: This paper intends to do a brief reading of “p – person”, a poem by the contemporary Italian author Maria Grazia Calandrone. In this reading the connection between the poetic images constructed by the poet and the concept of experience proposed by Jorge Larrosa in the first chapter of the book Tremors: writtings about experience will also be discussed.
Key words: Maria Grazia Calandrone. Experience. Memory. Resignification.
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Há poucos anos, Maria Grazia Calandrone, autora italiana contemporânea, teve suas primeiras obras traduzidas para a língua portuguesa no Brasil. Em 2022, Brilha como vida, livro em prosa, foi publicado pela Editora Relicário, com tradução de Patricia Peterle e Andrea Santurbano. Nesse mesmo ano, A vida inteira, livro de poemas, foi lançado pela Editora Urutau, com tradução de Patricia Peterle.
Neste artigo, realizaremos uma breve análise do poema “p – pessoa”, presente no segundo livro mencionado anteriormente:
“Uma pessoa é o que resta quando está distante”,
[isso
já escrevi. Eu estou aqui
e te faço falta, porque lembro
só daquilo que faz bem
lembrar: peneirei o ouro
da minha vida, o ouro da areia
da infância, quando minha mãe me levava à praia e
[eu olhava por horas
como reluz o mar dos promontórios. Não adianta
[lembrar
quando o amor se transforma em monstro. Não
[adianta lembrar
quantas vezes eu já morri
enquanto estava viva. Não adianta lembrar
do abandono. Uma pessoa é aquilo que ela contém
depois de a vida
ter trabalhado a tora da vida
até a medula, até dela fazer um barco levíssimo
que se mantém no mar
sob qualquer céu. Eu me lembro apenas
do reluzir a perder de vista
da minha vida. Se olhar bem,
verá uma coisa viva. Se olhar bem,
verá que agora finalmente estou
só viva.
Roma, 31 de dezembro de 2018
(Calandrone 2022, 117
Começaremos nossa leitura pelo título, que se mostra bastante instigante devido à sua composição: a letra “p” é separada da palavra “pessoa” por um travessão, escolha estética que sugere múltiplas possibilidades de interpretação e prepara o leitor para os diversos caminhos que poderão ser percorridos ao longo do poema.
A hipótese que adotamos parte de uma análise da sonoridade do fonema [p] e dos sentidos que ele suscita. Esse fonema é uma consoante oclusiva bilabial desvozeada (Cristófaro, 2003, p. 37), com total restrição à passagem do ar. Isso pode ser comprovado ao tentarmos pronunciar o [p] isoladamente, sem acompanhá-lo de uma vogal: o ar fica preso na boca e o som da consoante não se produz até que seja unido ao de uma vogal, o que, então, permite a passagem do ar e a emissão sonora, como em [pe], no início da palavra “pessoa”.
Em vista disso, associamos essa explosão sonora ao nascimento, compreendido aqui não apenas como início da vida, mas também como espaço de ressignificação da experiência, mediada pela memória no poema em análise. Nele, as palavras “vida” e “viva” se repetem, apontando para sucessivos (re)nascimentos simbólicos que atravessam as experiências vividas pelo eu lírico.
Segundo Jorge Larrosa (2015, p. 18), a “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.” Com isso, compreendemos que,
Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. (Larrosa 2015, 32).
Considerando esse caráter singular e corpóreo da experiência, propomos que o corpo também se torna uma fonte de significação daquilo que nos acontece, ao mesmo tempo em que é afetado pela própria experiência, reconstruindo sentidos para si e para o que se passa em nós. Contudo, é necessário afirmar que a significação da experiência não é imutável. Por isso, a memória desempenha um papel importante nos processos de ressignificação do vivido, já que, ao tentarmos repetir ou reviver o que um acontecimento despertou em nós, acabamos por modificar seu significado anterior, conforme o saber construído a partir das demais experiências vivenciadas ao longo do tempo.
Desse modo, a relação entre memória e experiência é importante para a continuidade desta análise, já que partimos do pressuposto de que a memória seria uma forma de entrarmos em contato novamente com a experiência vivida, sem ser, de fato, uma repetição do momento em que essa se deu. A memória seria, então, uma forma de relembrar uma dada experiência e de ressignificá-la por meio dos saberes singulares construídos a partir de experiências diferentes daquela que é rememorada.
Essa hipótese se confirma ao analisarmos a criação de duas importantes imagens poéticas presentes nos seguintes versos: “peneirei o ouro/da minha vida” e “a vida/ter trabalhado a tora da vida/até a medula” (Calandrone, 2022, p. 117). “Peneirar o ouro da vida” e “trabalhar a tora da vida” são imagens elaboradas a partir das experiências que remetem ao processo de amadurecimento do eu lírico. Além disso, esses versos apontam para a transformação da compreensão do mundo ao longo da existência humana.
O verbo peneirar possui, entre seus sentidos, o de selecionar. Ao lermos o poema como um todo, torna-se evidente o trabalho de ressignificação da experiência vivida, no qual o eu lírico interfere ativamente: “lembro/só daquilo que faz bem/lembrar” (Calandrone, 2022, p. 117). No entanto, não há controle absoluto sobre o que nos vem à memória; por isso, o trabalho de peneirar, ou seja, de filtrar as experiências, torna-se necessário — separando a areia do ouro. Vale ressaltar que o ouro é um material extremamente maleável e pode ser transformado em fio. Metaforicamente, podemos compreender que esse fio constitui a matéria da escrita poética, bem como o próprio processo ativo de ressignificação da experiência, como se observa nos versos: “Não adianta lembrar/quando o amor se transforma em monstro. Não adianta lembrar/quantas vezes eu já morri/enquanto estava viva. Não adianta lembrar/do abandono.” (Calandrone, 2022, p. 117).
“Trabalhar a tora da vida” pode ser entendido não apenas como uma metáfora da ressignificação da experiência, mas também como forma de destacar que esse processo resulta das escolhas feitas pelo eu lírico ao longo de sua trajetória. A tora é uma matéria-prima constituída por um tronco de árvore sem copa e sem raízes, ou ainda por um segmento do tronco. Essa matéria pode assumir diversas formas por meio do trabalho humano. Da mesma forma, as experiências humanas, enquanto matéria bruta encarnada, podem ser ressignificadas pela memória, que reelabora o vivido a partir dos saberes adquiridos nas múltiplas experiências ao longo da vida. No poema, a “tora da vida” poderia ser transformada em qualquer objeto, mas a poeta opta por “um barco levíssimo/que se mantém no mar/sob qualquer céu” (Calandrone, 2022, p. 117). Com isso, evidencia-se o desejo do eu lírico de se reinventar, de se reconstruir constantemente, ressignificando suas experiências, inclusive diante da vulnerabilidade.
As imagens analisadas mostram, portanto, que o saber corpóreo da experiência, como propõe Larrosa, é ressignificado no poema por meio da atuação consciente do eu lírico no processo de reconstrução da memória — ainda que tal processo não seja plenamente controlável, dada a complexidade das significações inscritas no corpo pela experiência.
Para concluir, o que se torna evidente em “p – pessoa” é o processo de crescimento e amadurecimento do eu lírico, sugerido nos versos finais: “Se olhar bem,/verá que agora finalmente estou/só viva.” (Calandrone, 2022, p. 117). A poeta parece afirmar que, para se sentir viva, é preciso engajar-se continuamente na transformação de si mesma — ou seja, ser capaz de (re)nascer simbolicamente inúmeras vezes, ressignificando o que é lembrado. Assim, ao tecer poeticamente as narrativas oriundas da ressignificação da experiência vivida, a autora apresenta, em seu texto, aquilo que constitui a vida desse eu lírico enquanto pessoa.
Calandrone, Maria Grazia. 2022. A vida inteira. Cotia: Urutau.
Larrosa, Jorge. 2015. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica.
Silva, Thaïs Cristófaro. 2003. Fonética e Fonologia do Português: roteiro de estudos e guia de exercícios. São Paulo: Contexto.
Tem graduação em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, bem como mestrado e doutorado em Estudos Literários por essa mesma instituição. Foi menção honrosa no prêmio Anpoll em 2012 com sua dissertação de mestrado intitulada Narrativas da “frátria imaginada”: Ferréz, Dugueto Shabazz, Sérgio Vaz, Allan da Rosa. Sua tese de doutorado, cujo título é Perifagia – comendo pelas beiradas: entulho, inocência e marmita, foi publicada em 2018 pela editora Bartlebee. Trabalha com oficinas literárias desde 2012 e tem livros de poemas publicados
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