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Revista Casa D'Italia

Arquitetura em Juiz de Fora: alguns destaques

Antonio Carlos Duarte
Fevereiro 2026, n°41 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais

Inúmeros são os imóveis que constituem bens culturais da cidade, eles são representativos de diversos períodos históricos e perfazem um total superior a 180 os reconhecidos oficialmente pela Prefeitura.

Fazenda Tapera

Fazenda Ribeirão das Rosas

Fazenda Tapera

Fazenda Ribeirão das Rosas

Dos anos 1700, e junto ao Caminho Novo de Garcia Paes, têm-se as sedes das fazendas da Tapera (c 1700) e da Ribeirão das Rosas (c 1770), ambas atualmente fragilizadas e “engaioladas” na expectativa de restauração. Da fazenda do Juiz de Fora – origem do topônimo da cidade – nada sobrou, sequer “pedra sobre pedra”; somente lamentos de alguns intelectuais ou registros em antigas fotos e telas de pintores locais.

Foto da esquerda: Capela Senhor dos Passos (1913)
Foto da direita: Capela Senhor dos Passos e Hospital da Misericórdia (1859), OST (detalhe) Rocha Fragoso

Será junto à “Estrada Nova” (c 1836), em região do vale do rio Paraibuna e na parte ligeiramente elevada (trecho da atual avenida Barão do Rio Branco no Bairro Alto), que o fazendeiro José Antônio da Silva Pinto, barão de Bertioga, erguerá sobrado para sua residência, moradias destinadas aluguel e, em um largo, a capela do Senhor dos Passos (1840) e o Hospital da Misericórdia (c 1859).

Palacete Santa Mafalda – Grupos Centrais

Na parte plana da via, o Comendador Manoel do Vale Amado constrói elegante e luxuoso edifício em dois pavimentos e com fachada grandiosa (c 1850) que, um dia, ele “sonhou” ser Paço Imperial ofertando-o a Dom Pedro II; mino recusado pelo honrado imperador. O palacete, denominado Santa Mafalda, abriga, atual-mente, os Grupos Centrais.

“Castelo” Ferreira Lage /Museu Mariano Procópio

No final dos anos 1850, o empresário Mariano Procópio Ferreira Lage propõe-se à construção da Estrada União e Indústria, “moderna” via pavimentada de interligação entre Juiz de Fora (MG) e Petrópolis (RJ) e, consequentemente, à Corte do Rio de Janeiro. Na região do córrego do Bairro São Pedro e em parte do vale do Paraibuna, Mariano instalará habitações para os imigrantes alemães, estação de mudas e oficinas e, sobre colina, sua requintada e destacada residência de verão (projeto do arquiteto alemão Carlos Gambs), arrojada construção em dois pavimentos mais torreão e com porão alteado, alvenaria em tijolos cerâmicos aparentes, telhas planas, decoração sofisticada, sistema de abastecimento hidráulico, terraços, pergolados, escadarias e esculturas, tudo envolvido por enorme parque ajardinado e arborizado (elaborado por C. Carlini, estabelecido no Rio de Janeiro), com chafariz, gruta, lago, ilhas e pontes… A inauguração da estrada acontece em junho de 1861, com a presença de Dom Pedro II, familiares e inúmeros convidados.

Palácio da Justiça e Fórum / Palácio Barbosa Lima (Câmara de Vereadores)

Novas inaugurações, com a presença de Dom Pedro II, acontecerão em 1878. Junto ao Largo Municipal (Parque Halfeld) serão erguidos três simbólicos prédios: o Fórum, a igreja de São Sebastião e uma escola pública (demolida). O primeiro, foi considerado, na época, “um dos mais belos edifícios do país” (Morel, 1888).

Tecelagem Bernardo Mascarenhas / Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

Nas últimas décadas do século XIX, tem-se o processo de industrialização da cidade, ocasião em que serão instalados importantes equipamentos, dentre os quais a Fábrica de Tecidos dos Ingleses (1883) e a Fiação e Tecelagem Bernardo Mascarenhas (1888 e 1893), esta grandioso e palaciano prédio (atualmente Centro Cultural).

Estação Ferroviária / Sociedade Belas Artes Antônio Parreiras

Os trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II (posteriormente Central do Brasil) – interligação com a cidade do Rio de Janeiro – chegam à Juiz de Fora em fins de 1875. A estação de Mariano Procópio é inaugurada em 1876. A do centro urbano (1906) é erguida junto à praça Dr. João Penido e adquire acentuado destaque em função da visibilidade, da localização no “coração” da cidade, da arquitetura singular, da contribuição para o desenvolvimento e para a movimentação do dia a dia urbano: torna-se, a partir de então, um dos principais símbolos locais. No contexto da praça, a presença de casas comerciais, de hotéis (Grande Hotel Renascença), da sede da Associação Comercial (1918), de carroças de tração animal indo e vindo, de “bondes sem pressa dando voltas vadias…” (BANDEIRA, Manuel). Em síntese, conforme poetizam e cantam Fernando Brant e Milton Nascimento:

“Todos os dias é um vai e vem, (…),
É a vida desse meu lugar.”

Academia do Comércio

Instituto Granbery

Colégio Santa Catarina

Inst. Estadual Educação

A partir da última década do século XIX, destacar-se-ão, na paisagem urbana, importantes, amplas e palacianas edificações destinadas a instituições educacionais: a cidade torna-se polo regional de ensino. Primeiramente a Academia do Comércio (1891), após o Instituto Granbery (1903), o Colégio Santa Catarina (1909), o Colégio Stella Matutina (1917), demolido, o Instituto Estadual de Educação (1930) é relevante iniciativa governamental.

Catedral Metropolitana

Monumento Cristo Redentor

Igreja da Glória

Igreja Metodista

Urbe caracterizada pela religiosidade, templos de arquitetura requintada vão se erguer; citam, especialmente, a igreja Matriz de Santo Antônio (c 1870 e c. 1940), o monumento/capela do Cristo Redentor (1906), a igreja da Glória (1924) e a igreja Metodista (1928).

Associação Comercial

Edifício Ciampi

Paço Municipal

Ed. São Sebastião (esq.), Cine Theatro-Central, Ed. Grippi (dir.)

Galeria Pio X

Casa D’Italia

Algumas das edificações, anteriormente mencionadas (e outras mais…), têm a participação de imigrantes ou descendentes de italianos, de maneira especial de Pantaleone Arcuri, aqui chegado em 1876. Seu filho primogênito Raphael vai contribuir para a identidade e qualidade da arquitetura local, tanto a denominada Eclética (Repartições Municipais (1918 e 1934), Cine Theatro-Central (1929), Edifício Ciampi (1930)) quanto
a de linha Art Déco (a dupla de edifícios São Sebastião e Grippi (c.1930), a Galeria Pio X (1934), a Casa d’Italia (1937)). O filho caçula Arthur, em meados do século XX, desenhará residências conforme os “dogmas” modernistas e, à época, singulares na paisagem (João Vilaça, Antônio Carlos Pereira, Frederico de Assis, Romeu Arcuri…), além do Marco Centenário de Juiz de Fora (1950). Hugo Arcuri (filho de Raphael) projetou residências e a sede da Associação de Damas Protetoras da Infância (1948). Membros da tradicional família continuam atuando nas mais diversas áreas, como arquitetura, engenharia, construção civil e outras, inclusive na política. Márcio Acuri é arquiteto e se dedica a estudos de história e desenvolve ações culturais, especialmente junto à colônia italiana.

Agência do Banco do Brasil

Edifício Clube Juiz de Fora

Edifício Getúlio Vargas

Em meados do século XX, tem-se a “importação” de projetos de arquitetos modernistas com escritórios estabelecidos na vizinha Rio de Janeiro. Com assinatura de Oscar Niemeyer erguer-se-á a sede da agência do Banco do Brasil (1950), Francisco Bolonha é responsável pelo projeto do Edifício Clube Juiz de Fora (c.1950) (com painéis de Cândido Portinari e Paulo Werneck) e o Edifício Getúlio Vargas (c.1955) é de autoria de Ulisses Burlamaqui.

Avenida Barão do Rio Branco

Fato significativo em 1982, será a criação do “IPPLAN – Instituto de Pesquisa e Planejamento” na administração do Prefeito Mello Reis. Urbanistas, arquitetos, engenheiros, geógrafos, sociólogos, juristas, historia dores e outros profissionais farão parte da qualificada equipe da instituição que contribuirá significativamente – e especialmente – para o urbanismo e a arquitetura da cidade. A avenida Barão do Rio Branco e o Parque HalAgência do Banco do Brasil Edifício Clube Juiz de Fora Edifício Getúlio Vargas Avenida Barão do Rio Branco feld (esse permanentemente vítima de interferências físicas, apesar de estar incluído entre Bens Tombados!…) recebem novo desenho, dentre outras ações. Uma nova legislação urbana entra em vigor no ano de 1986.

No final da década de 1980 e início da de 1990, novos arquitetos – com formação acadêmica no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outros importantes centros – aportam à cidade até então caracterizada pela forte presença de engenheiros e cuja Escola de Engenharia fora fundada em 1914. A instalação do Curso de Arquitetura na Universidade Federal de Juiz de Fora, quase sete décadas após (1992), quando presidente da República o juiz-forano Itamar Franco, contribuirá para a formação de profissionais especializados e resultará em significativa melhoria na qualidade da arquitetura das edificações, da paisagem e da qualidade de vida na cidade.

AZEVEDO, Nilo Lima de e JABOUR JUNIOR, Wilson Coury. Reflexões e olhares: o patrimônio cultural de Juiz de Fora. Juiz de Fora: FUNALFA, 2012.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da Manhã, 1936. In: BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1990.

DUARTE, Antônio Carlos. Arquitetura Art Déco – Juiz de Fora. Juiz de Fora: FUNALFA, 2013.

_______. Arquitetura Eclética – Juiz de Fora. Juiz de Fora: FUNALFA, 2016.

_______. Arquitetura Moderna – Juiz de Fora. Juiz de Fora: FUNALFA, 2017.

_______. Juiz de Fora Imperial. Juiz de Fora: FUNALFA, 2024.

Guia dos bens tombados de Juiz de Fora/ Divisão de Patrimônio Cultural da Prefeitura de Juiz de Fora (org.) Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2002.

OLENDER, Marcos. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2011.

TRAVASSOS, Miriam. Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora: uma reportagem para a história. Juiz de Fora, MG: ESDEVA, 1993.

IMAGENS

Todas as fotos são do autor, exceto:
Fazenda Ribeirão das Rosas, 2000. Fonte: FUNALFA – DMPAC

Antônio Carlos Duarte

Falta

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