Resumo: O artigo examina o Castelinho dos Pantaleone como peça-chave para compreender a atuação da família Arcuri na modernização de Juiz de Fora. Inserido em um contexto de intenso desenvolvimento urbano, o edifício sintetiza a trajetória da Companhia Pantaleone Arcuri, principal referência da construção civil local entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Projetado por Raphael Arcuri, o Castelinho revela tanto o domínio técnico quanto a sensibilidade formal que marcaram a inserção dos imigrantes italianos no cenário urbano da cidade. Ao abordar sua implantação estratégica, suas transformações volumétricas e suas ressignificações ao longo do tempo, o estudo destaca o imóvel como um ícone arquitetônico e como um suporte de memórias que articula família, indústria, cultura e identidade juiz-forana.
Palavras-chave: Castelinho dos Pantaleone. Castelinho dos Bracher. Raphael Arcuri. Companhia Pantaleone Arcuri. Patrimônio.
Abstract: This paper addresses the “Castelinho dos Pantaleone” as a key element for understanding the role played by the Arcuri family in the modernization of Juiz de Fora. Built in a context of rapid urban development, the building offers an exemplary synthesis of “Companhia Pantaleone Arcuri”, one of the most influential construction firms in the city from the late nineteenth century to the mid-twentieth century. Designed by Raphael Arcuri, the “Castelinho” reveals not only technical expertise but also the aesthetic refinement that shaped the presence of Italian immigrants in the urban fabric of Juiz de Fora. By analyzing its strategic siting, volumetric transformations, and the ways in which its presence has been reframed over time, this paper highlights the building as both an architectural landmark and a privileged repository of collective memory which articulates family, industry, culture, and local identity.
Key words: “Castelinho dos Pantaleone”; “Castelinho dos Bracher”; Raphael Arcuri; “Companhia Pantaleone Arcuri”; Cultural heritage.
Riepilogo: El artículo analiza el “Castelinho dos Pantaleone” como una pieza fundamental para comprender el papel desempeñado por la familia Arcuri en el proceso de modernización de Juiz de Fora. Insertado en un contexto de acelerado crecimiento urbano, el edificio sintetiza la trayectoria de la “Companhia Pantaleone Arcuri”, un referente de la construcción civil local entre finales del siglo XIX y la primera mitad del siglo XX. Proyectado por Raphael Arcuri, el Castelinho evidencia tanto el dominio técnico como la sensibilidad formal que caracterizaron la contribución de los inmigrantes italianos al trazado urbano de la ciudad. Al examinar su implantación urbana estratégica, las transformaciones volumétricas que experimentó y las diversas relecturas de su presencia a lo largo del tiempo, el estudio destaca el inmueble como un icono arquitectónico y como soporte de memorias que articula familia, industria, cultura e la identidad de la ciudad.
Parole chiave: “Castelinho dos Pantaleone”. “Castelinho dos Bracher”. Raphael Arcuri. “Companhia Pantaleone Arcuri”. Patrimonio.
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A modernização de Juiz de Fora entre o final do século XIX e o início do XX consolidou a cidade como um dos principais polos urbanos e industriais de Minas Gerais, impulsionada por obras de infraestrutura, expansão do comércio e fortalecimento da indústria apoiada pelo capital cafeeiro (PIRES 2009). Esse avanço esteve diretamente relacionado à chegada de imigrantes, alemães, franceses e, sobretudo, italianos, cuja mão de obra qualificada atendeu às demandas técnicas de empreendimentos estruturantes, como a Companhia União e Indústria. Entre 1888 e 1930, tais imigrantes foram responsáveis por 49% dos novos ramos produtivos da cidade, e os italianos, em particular, desempenharam papel central na construção civil em meio a um cenário de intensas transformações urbanas, marcado por melhorias no saneamento, no abastecimento de água e na pavimentação. Essa atuação contribuiu decisivamente para a expansão e industrialização de Juiz de Fora. É nesse contexto que se destaca o imigrante italiano Pantaleone Arcuri, que se tornou o principal construtor civil da cidade entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Sua atuação foi determinante para as transformações urbanas do período e para a consolidação da Companhia Pantaleone Arcuri. Fundada em 1895 por Pantaleone Arcuri e Pedro Timponi, a Companhia destacou-se como agente fundamental da modernização urbana, articulando a presença italiana ao dinamismo construtivo local (OLENDER 2011). Responsável por grandes empreendimentos, como o Parque Halfeld, o edifício das Repartições Públicas e o Cine-Theatro Central, a Companhia não apenas marcou a paisagem urbana, mas também inovou ao diversificar sua produção industrial, fabricando ladrilhos hidráulicos e artigos em cimento-amianto (PASSAGLIA 1982). A consolidação da empresa se fortaleceu com a implantação, em 1895, de um amplo complexo industrial e habitacional em área estratégica, próxima à Alfândega de Minas Gerais, à fábrica de Bernardo Mascarenhas e à Companhia Mineira de Eletricidade (OLENDER 2011). A estrutura, composta por edifício principal, depósitos e oficinas organizadas em diversas seções produtivas, viabilizou-se pela escolha de um terreno mais acessível, ainda sujeito às enchentes do Rio Paraibuna (GENOVEZ 1998). Esse conjunto industrial, articulado a outros equipamentos urbanos, contribuiu para a formação e posterior consolidação da Praça Antônio Carlos como núcleo central do desenvolvimento local. Paralelamente, a industrialização impulsionou novas linguagens arquitetônicas, inspiradas em modelos europeus e refletidas em palacetes e edificações de maior porte, entre as quais se destaca o emblemático Castelinho dos Pantaleone.
A edificação em forma de palacete, de estilo eclético, foi construída no ponto mais alto da atual rua Antônio Dias Tostes, em um terreno pertencente à Companhia Pantaleone Arcuri e localizado nos fundos da Oficina da firma. O Castelinho dos Pantaleone, projetado e executado no início do século XX por Raphael Arcuri, filho primogênito de Pantaleone e principal projetista da Companhia, foi concebido como residência de sua família. Sua implantação privilegiada, que permitia a observação de todo o complexo industrial e de grande parte de Juiz de Fora, evidencia não apenas a relação direta entre a obra de Raphael e o contexto urbano em transformação, mas também seu papel na consolidação de uma linguagem arquitetônica alinhada à modernização da cidade.
Memórias de Wilson de Lima Bastos (1986, 190) também revelam o vínculo entre o Castelinho e o conjunto industrial: uma longa escada interna conectava a residência à parte baixa da rua Espírito Santo, onde se localizavam as primeiras instalações da Companhia. Segundo ele, a descida e, especialmente a subida, eram quase acrobáticas, tamanha a extensão e inclinação da escadaria.
Ao lado do Castelinho, foi construída a residência nº 310, também projetada por Raphael Arcuri e reformada pela Companhia em 1946. Raphael mudou-se para essa nova casa com a esposa e os filhos, deixando o Castelinho para o irmão Romeu e, mais tarde, para Reginaldo Arcuri (OLENDER 2011).
A pesquisa acadêmica dedicada ao Castelinho (MOREIRA 2017) demonstrou que a configuração original da edificação era composta por um volume simples: casa e torreão. Na década de 1930, o edifício recebeu um novo volume, ampliando e redefinindo a volumetria para o que se conhece atualmente. Naquele período, o imóvel ainda era residência da família de Reginaldo Arcuri.
Após ser vendida pela família Arcuri ao casal Maria Geralda e Sebastião Lopes Valadão, a edificação foi novamente negociada em 1951, passando então para a família Bracher. Sob nova propriedade, o Castelinho adquiriu uma conotação distinta: os Bracher transformaram o edifício em um espaço singular de convivência, marcado por encontros, debates e arte, criando um modo lúdico de habitar o palacete eclético.
A valorização da arquitetura, a relação afetiva e simbólica com o edifício culminou, em 1997, no pedido de tombamento feito pela própria família, orientada por Nívea Bracher. Foram tombadas as fachadas e a volumetria do Castelinho, gesto que reafirmou a relevância do imóvel como suporte de memórias e como patrimônio significativo para a história e a cultura de Juiz de Fora.
Genovez, Patrícia Falco. 1998a. Núcleo Histórico da rua Espírito Santo. Juiz de Fora: Clio Edições Eletrônicas.
Moreira, Ana Carolina Gamarano. 2017. O Castelinho dos Bracher: herança arquitetônica e artística em Juiz de Fora. Juiz de Fora: UFJF.
Olender, Marcos. 2011. Ornamento, Ponto e Nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: Editora UFJF.
Passaglia, Luiz Alberto do Prado. 1982. A preservação do patrimônio histórico de Juiz de Fora. Juiz de Fora: PJF/IPPLAN.
Pires, Anderson. 2009. Café, Finanças e
Indústria: Juiz de Fora 1889-1930. Juiz de
Fora: FUNALFA
É arquiteta e urbanista, mestre em Ambiente Construído pela UFJF, onde desenvolveu pesquisa dedicada ao patrimônio cultural, sobretudo, às transformações arquitetônicas do Castelinho dos Brachner. Seu trabalho investiga as relações entre memória, identidade e arquitetura em Juiz de Fora. Atua em projetos de arquitetura residencial, comercial, interiores e em estudos de edificações históricas.
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