A arquitetura, longe de constituir apenas uma resposta técnica às necessidades do habitar, é uma linguagem profundamente política, capaz de materializar projetos de poder, hierarquias sociais e visões de mundo. Ao longo da história, os edifícios produziram sentidos, disciplinaram corpos e organizaram espacialmente relações de dominação e pertencimento. Castelos, palácios, igrejas e monumentos não emergem de escolhas neutras: são expressões materiais de horizontes de expectativas e disputas simbólicas que se inscrevem no território. Nesse sentido, a arquitetura atua como uma tecnologia política, capaz de naturalizar desigualdades, fabricar continuidades históricas e legitimar determinadas narrativas sobre o passado, sobretudo quando mobiliza repertórios estéticos associados à tradição, à ordem e à permanência.
Como demonstra Diane Ghirardo (2013), a arquitetura italiana do final do século XIX e início do XX não pode ser compreendida apenas como um campo de experimentação estética, mas como parte de um esforço mais amplo de construção da identidade nacional após a unificação. Nesse contexto, o recurso ao passado, especialmente ao medieval e ao clássico, operou como estratégia simbólica para produzir continuidade histórica e estabilidade política em uma sociedade marcada por profundas desigualdades regionais e tensões sociais. É nesse ambiente intelectual e cultural que se insere a família Arcuri, em especial a formação do primogênito Raphael. Formado em Nápoles, entre 1908 e 1911, Raffaele Arcuri (conforme seu registro italiano) estudou técnicas construtivas no ateliê de Giovanni De Fazio, então estudante de arquitetura na Escola de Arquitetura do Instituto de Belas Artes de Nápoles, entre 1903 e 1911 (Olender 2011, 150).
A estadia e a formação de Raphael Arcuri em Nápoles exerceram influência decisiva sobre sua obra, repercutindo diretamente em sua atuação arquitetônica em Juiz de Fora. No entanto, o diálogo de sua produção com a arquitetura italiana não pode ser compreendido apenas como uma escolha ou inspiração de caráter estético. A família Arcuri manteve vínculos profundos e duradouros com a Itália, tanto no plano afetivo quanto político. Exemplo disso é que embora Pantaleone Arcuri já residisse no Brasil, optou por retornar à Itália para o nascimento de Raphael, assegurando ao primogênito a naturalidade italiana, gesto que revela a centralidade dessa identidade na trajetória familiar (sua naturalização brasileira aconteceu somente em 1943). Além disso, Pantaleone foi um declarado apoiador do fascismo italiano, sendo sua companhia e Raphael responsáveis pela construção da Casa d’Italia em Juiz de Fora. Assim, a aproximação estilística entre a arquitetura italiana e a produção juiz-forana dos Arcuri deve ser interpretada como parte de um projeto de afirmação nacionalista e de fortalecimento simbólico dos laços com a pátria italiana, mobilizando a arquitetura como linguagem política e identitária, como o próprio Estado italiano fazia.
Vista a vasta atuação da Construtora Pantaleone na cidade, aqui destacam-se algumas das obras que se interligam especificamente com a cidade de Nápoles. Está, marcada por intensos debates entre tradição e modernização, oferecia um terreno fértil onde conviviam o legado medieval, o ecletismo oitocentista e as linguagens emergentes do Liberty italiano (Art Nouvelle). Mais do que absorver um estilo, os Arcuri integravam um contexto no qual a arquitetura era compreendida como instrumento de construção simbólica da sociedade, que deveria responder aos anseios de uma pátria gloriosa em seu passado e fortalecer vínculos coletivos. Nesse sentido, ressalta-se o uso do medieval, que aparece como catalisador das raízes europeias mais tradicionais, se interligando ao passado romano e renascentista.
Conforme mostra Ghirardo (2013, 25-26), na Exposição Nacional de Turim em 1884, o passado medieval foi fisicamente recriado através do Borgo Medievale (Bairro Medieval) no Parco del Valentino. Idealizado por Alfredo d’Andrade, esse projeto consistia em um bairro inteiro modelado segundo as tradições regionais do século XV. O Borgo Medievale não era apenas uma cenografia, mas um projeto que seguia um rigor de linguagem arquitetônica, utilizando métodos de construção e elementos de edifícios regionais reais para criar um todo harmonioso e pitoresco. Essa arquitetura “pseudo-vernácula” medieval estava em completa oposição aos edifícios públicos pesadamente ornamentados e às casas burguesas que estavam sendo erguidas em Turim e outras cidades italianas na época. Enquanto as classes dominantes muitas vezes preferiam a elegância ordenada do neoclassicismo para edifícios dedicados às artes, o medieval representava uma busca por raízes étnicas e tradições locais. Foi também na Exposição de Turim, de 1898, que os Arcuri foram premiados pela primeira vez (Moreira, 2017, 36).
Assim, a presença reiterada de elementos neo medievais e neogóticos na obra de Raphael, como as torres e abóbadas não pode, portanto, ser lida apenas como escolha estética ou nostalgia formal, mas como adesão a uma gramática política. Destaca-se a presença das cúpulas/abóbadas nos edifícios: Capela Senhor dos Passos, Cia. Dias Cardoso, Cia. Pantaleone Arcuri, Paço Municipal, Hotel Príncipe, Palacete Pinho; como também a torre no Castelinho dos Bracher (antiga residência de Raphael); e mesmo em obras do Art Nouveau como é o caso da Vila Iracema e Palacete Fellet, onde Raphael réplica a ideia das torres e cúpulas, comuns à arquitetura neomedieval e neogótica.
Diante disso, vale destacar também uma das obras mais intrigantes de Juiz de Fora que foi construída para abrigar o maquinário da Cia Mineira de Eletricidade: o atual Castelinho da CEMIG. Isso porque reiteradas fontes atuais e tradicionais atribuem a edificação à Construtora Pantaleone Arcuri & Spinelli, no ano de 1890, porém, a Construtora foi fundada apenas em 1895. Mesmo que a obra fosse de Pantaleone, os primeiros registros que se tem dele em Juiz de Fora datam entre 1890 e 1892 (Corrêa, 2016). A incongruência encontrada em diversas fontes e sua ausência ou citação breve nos dois principais trabalhos aprofundados sobre a família da cidade (Olender, 2011; Corrêa, 2016), leva ao questionamento se a obra é realmente da família Arcuri e, se for, qual a data de sua construção. É importante dizer ainda que, durante o levantamento de fontes a única menção ao prédio da Cia Mineira de Eletricidade no século XIX foi encontrada no jornal O Pharol e nela, o prédio está localizado na Rua Direita, nº38 (O Pharol, 1890). A existência desse prédio pode ser o pivô da confusão das fontes, pois a monumentalidade do prédio Castelinho (que era apenas uma casa de máquinas) pode ter feito com que os estudiosos o confundem com o escritório da companhia, esse sim um edifício anterior a 1895.
Figura1: Castelinho da CEMIG. Fonte: https://encurtador.com.br/sKeu
A monumentalidade do prédio está em suas características arquitetônicas por replicarem um castelo medieval (figura 1). O partido arquitetônico remete deliberadamente ao repertório do medievalismo revivalista, com destaque para os elementos de fortificação, como as torres cilíndricas laterais com coroamento em ameias, que evocam a imagem de castelos e edifícios defensivos. Essas torres não possuem função estrutural defensiva, atuando sobretudo como elementos simbólicos, reforçando a ideia de autoridade, permanência e monumentalidade. Logo, em vista do que foi discutido anteriormente neste breve artigo, acredita-se que a obra é sim de um dos Arcuri, porém que sua datação seja entre 1900 e 1920, sobretudo em razão da volta de Raphael à cidade em 1911 e sua influência neomedieval. Destaca-se ainda que enquanto estudava, Raphael viveu na casa de sua bisavó no bairro Vomero, onde em 1902 havia sido construído o Castelo Aselmeyer.
Além das referências ao neomedieval, é importante destacar que outras obras da Construtora Pantaleone fazem referência direta aos prédios de Nápoles, como é o caso do edifício Sulacap. Desenhado pelo arquiteto Roberto Capello, entre 1938 e 1939, o edifício possui uma acentuada semelhança com o Palazzo dell’Intendenza di Finanza, de Nápoles, projetado por Marcello Canino, entre 1933 e 1937. Essa proximidade cronológica revela a atenção permanente da família às linguagens, debates e tendências em circulação na Itália, indicando uma vontade explícita de manter-se simbolicamente próxima àquele contexto cultural e político (figuras 2 e 3).
Figura 2: Palazzo dell’Intendenza di Finanza, Nápoles, Itália. Fonte: Urbanfile. La voce delle città. Palazzo dell’Intendenza di Finanza, restaurata l’abside. 12 de fevereiro de 2016. Disponível em: https://blog.urbanfile.org/2016/02/12/palazzo-dellintendenza-di-finanza-restaurata-labside/. Acesso em: 04/01/2026.
Figura 3: Edifício Sulacap, Juiz de Fora, Brasil. Fonte: Fonte: Blog Maria do Resguardo. Disponível em: https://www.mariadoresguardo.com.br/2010/01/rua-halfeld-edificio-sulacap-arquivo.html. Acesso em: 04/01/2026.
Portanto, a produção arquitetônica da Pantaleone Arcuri e, em especial, de Raphael Arcuri, dialoga com o mesmo campo simbólico que seria mobilizado também pelo fascismo italiano: a ideia de um passado forte, orgânico e centralizado, capaz de fortalecer elos nacionalistas. Ainda que os Arcuri atuem em outro contexto nacional, sua formação e contexto histórico os insere numa cultura arquitetônica como linguagem política. Mais do que reproduzir formas consolidadas, os Arcuri demonstraram um engajamento ativo com referências contemporâneas ao seu tempo, utilizando a arquitetura como meio de reafirmação identitária e de manutenção dos vínculos com a pátria de origem, mesmo no espaço urbano brasileiro.
Figuga: Paço Municipal. Fonte: https://encurtador.com.br/OPph
Figura: Príncipe Hotel Foto: Felipe Couri. Disponível em: Morais, Mauro. Revitalizado, antigo Príncipe Hotel dá novo fôlego à Praça da Estação. Tribuna de Minas, 15 jul. 2018.
Figura: Capela Nosso Senhor dos Passos. Foto: Eliton Souza. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/335940453437426297/. Acesso em: 04/01/2026.
Figura: Palacete Fellet. Fonte: Blog Maria do Resguardo. Disponível em: https://www.mariadoresguardo.com.br/2013/03/palacete-fellet-rua-espirito-santo-n.html. Acesso em: 04/01/2026.
Figura: Castelinho dos Bacher (antiga residência do Raphael Arcuri). Fonte: Andrade, Alissa; Wendeling, Camila; Fontana, Iuri ; e Nonato, Lívia. Castelinho dos Bracher: um berço da arte juiz-forana.Acesso em: 04/01/2026.
Figura: Villa Iracema (1920). Fonte: Juiz de Fora em Imagens. Disponível em: https://pt.pinterest.com/pin/51650726954565291/. Acesso em: 04/01/2026.
Figura: Escritório da Companhia Mineira de Eletricidade
(século XIX). Fonte: Blog Maria do Resguardo.
Disponível em: https://www.mariadoresguardo.com.br/2011/09/av-rio-branco-companhia-mineira-de.html.
Acesso em: 04/01/2026.
Corrêa, Mariana da Silva. Construindo a cidade: A participação dos imigrantes italianos na formação do espaço urbano de Juiz de Fora (1895-1939). Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2016.
Ghirardo, Diane. Italy. Modern architectures in history. London: Reaktion Books, 2013.
Morais, Mauro. Revitalizado, antigo Príncipe Hotel dá novo fôlego à Praça da Estação. Tribuna de Minas, 15 jul. 2018. Disponível em: https://encurtador.com.br/BOIH . Acesso em: 04/01/2026.
Moreira, Ana Carolina Gamarano. O Castelinho dos Bracher: herança arquitetônica e artística em Juiz de Fora. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Juiz de Fora, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído, 2017.
Olender, Marcos. Ornamento, Ponto e Nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: EDUFJF, 2007.
O Pharol. Declarações. Companhia Mineira de Electricidade. 18 de julho de 1890. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, orientada pelo Prof. Dr. Rodrigo Christofoletti. Conselheira suplente do Conselho Municipal de Cultura de Juiz de Fora (MG). Mestra e bacharela em História com habilitação em Patrimônio Cultural pela UFJF. Vinculada ao Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (MAEA-UFJF). Integrante do Laboratório de Patrimônios Culturais (LAPA-UFJF) e do Grupo de Pesquisa (CNPq) “Patrimônio e Relações Internacionais”.
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