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Revista Casa D'Italia

O habitar como experiência psíquica: diálogos entre a Psicologia e a Arquitetura de Rafael Arcuri

Gabriel Neves
Fevereiro 2026, n°41 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais

Resumo: O texto discute as inter-relações entre Psicologia e Arquitetura, enfatizando como os espaços edificados influenciam e são influenciados pela subjetividade humana. A partir da reflexão sobre o processo de criação e vivência dos ambientes, argumenta-se que toda construção é permeada por afetos, memórias e intenções, ultrapassando sua função prática. O arquiteto Raphael Arcuri é apresentado como exemplo dessa integração entre técnica e emoção, cuja obra marcou profundamente o desenvolvimento urbano e simbólico de Juiz de Fora no início do século XX. Suas edificações, além de marcos arquitetônicos, são compreendidas como expressões afetivas e identitárias, revelando a indissociabilidade entre forma, percepção e afeto na constituição dos espaços habitados.

Palavras-chave: Psicologia. Arquitetura. Raphael Arcuri. Afeto. Percepção. Espaço urbano.

Abstract: The text discusses the interrelations between Psychology and Architecture, emphasizing how built environments influence and are influenced by human subjectivity. Reflecting on the process of creating and experiencing spaces, it argues that every construction is imbued with emotions, memories, and intentions that transcend its practical function. Architect Raphael Arcuri is presented as an example of this integration between technique and emotion, whose work profoundly shaped the urban and symbolic development of Juiz de Fora in the early twentieth century. His buildings, beyond being architectural landmarks, are understood as affective and identity expressions, revealing the inseparability between form, perception, and emotion in the constitution of inhabited spaces.

Keywords: Psychology. Architecture. Raphael Arcuri. Affect. Perception. Urban space.

Riepilogo: Il testo discute le interrelazioni tra Psicologia e Architettura, sottolineando come gli spazi costruiti influenzino e siano influenzati dalla soggettività umana. Riflettendo sul processo di creazione e di esperienza degli ambienti, si sostiene che ogni costruzione sia permeata da affetti, memorie e intenzioni che superano la sua funzione pratica. L’architetto Raphael Arcuri è presentato come esempio di questa integrazione tra tecnica ed emozione, la cui opera ha segnato profondamente lo sviluppo urbano e simbolico di Juiz de Fora all’inizio del XX secolo. I suoi edifici, oltre a essere punti di riferimento architettonici, sono compresi come espressioni affettive e identitarie, rivelando l’indissolubilità tra forma, percezione e affetto nella costituzione degli spazi abitati.

Parole chiave: Psicologia. Architettura. Raphael Arcuri. Affetto. Percezione. Spazio urbano.

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Entre paredes e afetos: o humano em seu espaço

A relação entre os seres humanos e seus espaços sempre foi permeada de significados que nos permitem criar e transformar formas de ser e de pensar. A Psicologia, e por extensão a Psicologia Ambiental, nos possibilita refletir sobre os efeitos do espaço no comportamento humano e, inversamente, sobre os efeitos da subjetividade na modificação das paisagens e estruturas edificadas. De acordo com Cavalcante e Elali (2011, 17), trata-se de “um campo de conhecimento voltado para o entendimento das relações bidirecionais pessoa-ambiente”, isto é, a dinâmica contínua em que o sujeito interpreta e molda o seu ambiente, sendo também moldado por ele.

O espaço como expressão de afetos

Compreendemos, portanto, que os ambientes não existem apenas para cumprir funções práticas: eles estão permeados de sentimentos desde o planejamento até a execução, o uso e a contemplação. Imaginemos, por exemplo, que um construtor da Idade Média decida erguer um castelo. Inevitavelmente, suas experiências de vida, o espírito do tempo e as necessidades urgentes do solicitante — moradia, refúgio, proteção — moldarão o edifício antes mesmo de seu surgimento. O castelo será construído por pessoas que também possuem suas vivências, amores, perdas e esperanças; sentimentos que, de algum modo, participarão da edificação, já que são eles que, pouco a pouco, a erguem com o esforço de suas mãos. Por fim, quando o castelo estiver pronto e for habitado, o morador e sua família depositarão ali suas formas de existir e de ver o mundo, moldando tal espaço conforme suas necessidades e afetos.

Com o passar dos anos, ainda que a família não mais resida naquele castelo, suas alegrias, dores e sonhos continuarão atrelados à sua essência, influenciando aqueles que o admirarem em tempos posteriores. Poderíamos dizer, então, que o castelo é apenas um aglomerado de pedras, madeira e cimento? A proposta aqui é outra: compreender os espaços construídos como um conjunto de afetos solidificados e moldados em rocha.

Perceber para habitar: o papel da atenção e da memória

No âmbito da vivência subjetiva dos espaços, o fenômeno da percepção assume papel central, já que para vivenciar algo é preciso, antes de tudo, percebê-lo. Elali (1997, 42) afirma que “a percepção do ambiente construído pelos usuários permite a discussão das potencialidades do ambiente enquanto base física que propicia ou inibe comportamentos”. Assim, o ambiente moldado passa também a moldar quem o experiencia.

Quais processos estariam então envolvidos na percepção desses espaços que nos permitem moldar e ser moldados por eles? Dois conceitos são fundamentais: a atenção e a memória. A atenção pode ser entendida como a direção da consciência, o estado de concentração mental sobre determinado objeto (Cuvillier apud Dalgalarrondo 2019, 51). A memória, por sua vez, é a capacidade de codificar, armazenar e evocar experiências ou fatos, sendo sua formação intimamente ligada aos processos emocionais e ao nível de atenção do sujeito (Dalgalarrondo 2019, 53).

Entende-se, portanto, que primeiro é preciso prestar atenção ao objeto para que possamos vivenciá-lo de forma afetiva e, assim, armazená-lo na memória. A vivência psíquica do espaço construído, quando inserida em processos socioculturais, vai além de uma sequência de eventos neurocognitivos: torna-se um fenômeno essencialmente humano, afetivo e atemporal. Afinal, o que o arquiteto faz senão atrair a atenção e promover a percepção verdadeira dos sujeitos em relação ao espaço construído?

O arquiteto como depositário de afetos

Em sua atuação, o arquiteto assume também uma função estética-afetiva: não se limita a ordenar formas e funções, mas participa da constituição de vínculos duradouros entre os sujeitos e o espaço. O trabalho emocional do arquiteto representa um capital invisível que contribui para a formação do ambiente construído como lugar essencialmente significativo (Agha 2020).

Como visto, o arquiteto, inevitavelmente, se torna o primeiro depositário de afeto, pois inscreve em cada obra um fragmento de si mesmo, antes mesmo de ela existir. Compreender o habitar como experiência psíquica nos permite observar, na arquitetura de Raphael Arcuri, uma proposta de espaço que pensa o humano em sua complexidade emocional.

Raphael Arcuri e o espírito de uma cidade

O arquiteto Raphael Arcuri, foco desta reflexão, nasceu na Itália em 1891 e migrou para Juiz de Fora em 1896. Nesse contexto, a família Arcuri destacou-se na construção civil e na introdução de novas técnicas de edificação, tornando possível a existência de um grande número de obras hoje reconhecidas como patrimônio histórico e cultural.

No início do século XX, Juiz de Fora vivia o auge de sua vocação industrial, conhecida então como a “Manchester Mineira”. O impulso econômico e o desejo de afirmação da elite local criaram o cenário para a atuação de Arcuri, que entre 1910 e 1940 moldou o eixo urbano central da cidade (Rabelo e Souza 2021). Suas construções — entre elas o Cine-Theatro Central, a Casa d’Itália e o edifício das antigas Repartições Municipais — tornaram-se referências visuais e afetivas, compondo o imaginário coletivo juiz-forano.

Entre técnica e emoção: a herança de Arcuri

Arcuri nos convida a uma reflexão sobre a constituição subjetiva e identitária do espaço juiz-forano, pois as suas obras representam o encontro entre técnica e emoção, entre o gesto racional e o gesto afetivo. Mais do que edifícios, ele construiu símbolos — expressões materiais de uma cidade que buscava afirmar-se moderna sem perder a sensibilidade de suas raízes.

A atuação técnica e estilística de Arcuri reflete a passagem de Juiz de Fora de uma cidade de caráter industrial a um espaço de expressão cultural e identitária. A própria percepção do espaço urbano por seus habitantes torna-se também o motor para a sua mudança. O arquiteto ítalo-brasileiro foi, portanto, um propulsor de uma identidade simbólica urbana e, por consequência, de suas transformações, pois a percepção gera afeto, e o afeto promove transformações simbólicas, afetivas e materiais do espaço habitado e dos sujeitos que o habitam.

Raphael Arcuri deixou mais do que construções: deixou um modo de sentir a cidade. A sua inserção em um período histórico tão singular para o desenvolvimento urbano de Juiz de Fora deixou marcas não apenas materiais, mas também psíquicas — um legado emblemático, cravado em forma, memória e afeto.

Agha, Mahmoud. 2020. “Emotional Capital and Other Ontologies of the Architect.” Architectural Histories 8 (1): 23.

Cavalcante, Sylvia, e Gleice Elali. 2011. Psicologia Ambiental: Perspectivas Teóricas e Aplicações. Petrópolis: Vozes.

Dalgalarrondo, Paulo. 2019. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed.

Elali, Gleice. 1997. “Ambiente Construído e Comportamento Humano: Percepção, Cognição e Ação.” Revista de Psicologia Ambiental 12 (2): 35–48.

Rabelo, Letícia, e Milena Souza. 2021. “O Complexo Arquitetônico Projetado por Raphael Arcuri: Relação de Identificação Através do Contexto Histórico.” Centro Universitário Academia (UniAcademia), Juiz de Fora.

Gabriel Neves

É Psicólogo, nascido em Juiz de Fora na década de 90. Sua família de ascendência egípcia e portuguesa tem um forte vínculo com a história da cidade tendo se estabelecido inicialmente no bairro Jardim Glória desde a década de 50, onde ainda reside. Gabriel é pesquisador em Neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e atua em Juiz de Fora na área de Saúde Mental.

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