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Revista Casa D'Italia

“Eu mandava ladrilhar”. Uma paixão chamada: Ladrilho Hidráulico

Tarsila Palmieri
Fevereiro 2026, n°41 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais

Resumo: O ladrilho hidráulico foi um importante revestimento cimentício, muito utilizado no Brasil e no mundo. Pode ser considerado uma forma de manifestação artística por sua produção manual, que persiste até os dias atuais. O presente artigo busca, nesse sentido, colaborar com a conscientização, o reconhecimento e a preservação do uso do ladrilho hidráulico, baseada na representatividade destes como símbolo de cultura, sobretudo aqueles produzidos localmente, na cidade de Juiz de Fora/MG, presentes no catálogo da Companhia Pantaleone Arcuri. O trabalho tem por objetivo, ainda, resgatar da invisibilidade os ladrilhos hidráulicos preservados na cidade, aplicando seus tradicionais modelos gráficos em novos produtos de arte e design, através de um olhar particular da artista/arquiteta/autora, buscando relacioná-los à memória da cidade como um território, tendo os ladrilhos como elementos de uma cultura material indissociável dos contextos social
e cultural.

Palavras-chave: Ladrilho hidráulico. Design. Patrimônio. Arquitetura. Juiz de Fora.

Abstract: Hydraulic tiles were an important cementitious covering, widely used in Brazil and throughout the world. They can be considered a form of artistic expression due to their manual production, which persists to this day. This article seeks, in this sense, to contribute to the awareness, recognition, and preservation of the use of hydraulic tiles, based on their representativeness as a symbol of culture, especially those produced locally in the city of Juiz de Fora/MG, present in the catalog of the Companhia Pantaleone Arcuri. The work also aims to rescue the preserved hydraulic tiles in the city from invisibility, applying their traditional graphic models to new art and design products, through the particular perspective of the artist-author, seeking to relate them to the memory of the city as a territory, considering the tiles as elements of a material culture inseparable from social and cultural contexts.

Key words: Hydraulic tile. Design. Heritage. Architecture. Juiz de Fora.

Riepilogo: Le piastrelle idrauliche erano un importante rivestimento cementizio, ampiamente utilizzato in Brasile e in tutto il mondo. Possono essere considerate una forma di espressione artistica grazie alla loro produzione manuale, che persiste ancora oggi. Questo articolo cerca, in questo senso, di contribuire alla consapevolezza, al riconoscimento e alla conservazione dell’uso delle piastrelle idrauliche, basandosi sulla loro rappresentatività come simbolo culturale, in particolare quelle prodotte localmente nella città di Juiz de Fora/MG, presenti nel catalogo della Companhia Pantaleone Arcuri. Il lavoro mira inoltre a salvare dall’invisibilità le piastrelle idrauliche conservate in città, applicando i loro modelli grafici tradizionali a nuovi prodotti d’arte e di design, attraverso la particolare prospettiva dell’artista/arquiteta/autore, cercando di metterli in relazione con la memoria della città come territorio, considerando le piastrelle come elementi di una cultura materiale inscindibile dai contesti sociali e culturali.

Parole chiave: Piastrella idraulica. Design. Patrimonio. Architettura. Juiz de Fora.

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O design de superfície é uma área com elementos e linguagem própria e, por isso, é capaz de transformar o contexto social em que vivem as pessoas. É uma matéria exploratória criativa que abrange variados elementos, padronagens e tem poder comunicativo que pode ser aplicado em diversos suportes, neste caso, o cimento. Ladrilhos hidráulicos são revestimentos que podem ser aplicados em paredes ou pisos, sendo um produto de manufatura artesanal, produzido peça por peça há mais de um século. Os primeiros registros encontrados da utilização de ladrilho datam de 1850, na região do Vale do Reno na França, mas o material foi apresentado ao mundo apenas em 1867 na Exposição Universal, em Paris, pela empresa Garret, Rivet i cia, como uma nova alternativa, “uma cerâmica que não necessitava de cozimento, substituindo o emprego da pedra de mármore e o tradicional mosaico tipo romano como revestimento de pisos, ambos muito caros” (DOMINGUES, SANTOS, 2014). Sua base é feita a partir do cimento branco, areia, pó de mármore e pigmentos, moldado através de formas de aço, bronze ou latão contendo desenhos e prensado em prensa manual. Recebe esta denominação por apresentar, em seu processo de enrijecimento, submersão em água para a cura do cimento. Os formatos podem variar entre quadrados, retangulares, sextavados ou outros, sendo o formato quadrado, 20x20cm, o mais comum; podem ser lisos, desenhados e podem possuir textura ou relevo; seus grafismos são compostos de desenhos de temas variados, geométricos, florais e arabescos, com formas simples ou complexas; mas, geralmente, com características muito específicas desta tipologia de revestimento (CAMPOS, 2011). Em relação à origem dos padrões e estilos das superfícies dos ladrilhos, sabe-se que há uma grande quantidade de bases culturais entrelaçadas historicamente, sendo quase impossível resgatar essa ancestralidade. “Seu design remete aos mais variados contextos culturais: ora apresenta um desenho egípcio, ora africano, ora bizantino, germânico e assim por diante” (BECKER, VUOLO, 2009). O ladrilho hidráulico está presente em algumas das construções mais icônicas do Brasil e do mundo, sendo um símbolo de elegância e sofisticação do início do século XX, quando havia grande influência dos estilos Art Déco e Art Nouveau. O ladrilho hidráulico é usualmente constituído por três partes: o tardoz, a camada intermediária e a camada pigmentada. O tardoz, ou “mescla”, constitui-se em um corpo em argamassa de cimento Portland e pó de pedra; a camada intermediária, ou “secante”, é constituída por cimento Portland, pó de pedra e areia lavada de rio; e a camada pigmentada é formada pela mistura de cimento Portland branco estrutural, pó de mármore e pigmentos à base de óxido de ferro (LAMAS, LONGO, SOUZA, 2018). O processo de fabricação inicia-se com a limpeza e lubrificação das fôrmas com um produto desmoldante. Depois é ajustado a um quadro exterior de ferro, que limita as bordas da fôrma, um molde comumente de bronze, feito especificamente para cada desenho, que define o formato do ladrilho, os contornos internos e a separação de cores que irá gerar a estampa. O molde e o quadro são colocados sobre um suporte, onde cada parte de desenho da fôrma é, então, preenchida individualmente com a mistura líquida de pigmentos de cores variadas, formando assim a estampa que ficará na superfície. Depois o molde é retirado e completa-se o preenchimento com a mistura seca (intermediária), seguida de uma mistura úmida, que compõe o tardoz. Feito isso, o ladrilho é comprimido em uma prensa hidráulica, desenformado e, após descansar por vinte e quatro horas, é submerso em água por aproximadamente dez horas, para completar o processo de cura, ou seja, endurecimento. Esse revestimento recebe o nome de ladrilho hidráulico pelo fato de ser apenas molhado, sem processo de queima. Para que fiquem prontos para uso, demandam ainda um armazenamento por quatro semanas longe do sol — assim se finaliza a cristalização do cimento.

Figura 1 – Processo artesanal de produção do ladrilho hidráulico, destacando a moldagem,
camadas, compactação hidráulica e cura a frio. Fonte: A produção de ladrilho e o ofício de
ladrilhar: método de produção de ladrilhos do século XVIII aos nossos dias (LAMAS, LONGO, SOUZA, 2018).

Os pigmentos inseridos no molde formam a camada visível do ladrilho: a superfície, que ficará exposta visualmente e que fará a estrutura compositiva do revestimento, seja de piso ou de parede. A pavimentação se dá a partir de módulos individuais que se repetem, se espelham ou são compostos em torno de um eixo central para formar o desenho previamente planejado na composição da superfície ornamentada, criando diferentes paginações: bordas, tapetes, contínuos, florais, geométricos, patchwork e acabamentos de rodapé. O ladrilho hidráulico, embora de base artesanal, possuía para a época técnicas inovadoras em sua produção resultando em revestimento de alta qualidade e considerado um produto “moderno”, que conferia status às edificações e aos seus proprietários pelos valores estético e cosmopolita. O ladrilho hidráulico era revestimento de requinte no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. O padrão social podia ser diferenciado pelo visual, pois quanto mais luxuosa a edificação, mais complexo era o desenho dos ladrilhos e maior o número de cores. Esses dois fatores – complexidade e quantidade de cores – aumentam o tempo de produção e consequentemente tornam mais elevado o custo das peças (CAMPOS, 2011). Para as residências mais modestas, os ladrilhos tinham poucas cores e os desenhos eram simplificados, geralmente geométricos. Uma das empresas responsáveis pela produção desse revestimento no Brasil, foi fundada em 1895, pelos imigrantes italianos Pantaleone Arcuri e Pedro Timponi, na cidade de Juiz de Fora: Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri. Em 1898, Timponi se desligou da empresa, dando lugar a Antônio Spinelli. A sede da companhia foi construída em 1923, a partir de um projeto de um dos filhos de Pantaleone, Rafael Arcuri. A empresa atuava no ramo da construção civil e no comércio de materiais de construção. Possuía uma fábrica de ladrilhos e uma fábrica de telhas de amianto, pioneira na América Latina (UFJF/Arquivo Central). Seu apogeu aconteceu nas décadas de 20, 30 até meados de 40 do século XX, a partir daí começa uma fase de declínio, sendo preciso dispor de parte do patrimônio para cobrir dívidas e a partir da década de 80, a empresa entra em inadimplência e teve suas atividades encerradas (OLIVEIRA, 2013).

Figura 2 – Interior do comércio de materiais de construção, com destaque para o painel de
exposição dos diversos padrões de ladrilhos hidráulicos fabricados pela Companhia Industrial e
Construtora Pantaleone Arcuri. Fonte: Requalificação da sede da Companhia Pantaleone Arcuri: Um
Resgate à Memória Industrial de Juiz de Fora (OLIVEIRA, 2013).

O surgimento de novas tecnologias e produtos cerâmicos, trouxe impacto direto nas oficinas produtoras, que perderam clientes e funcionários. O comprometimento da  qualidade visual e estética dos ladrilhos; o alto custo em relação aos produtos industrializados; prazos prolongados para entrega, somados aos conceitos atrelados aos novos produtos, como inovação, praticidade, funcionalidade e baixo custo contribuíram para o declínio da aplicação do ladrilho hidráulico na arquitetura mundial e brasileira, de forma gradativa a partir dos anos 1950/60. Contudo, no século XXI, arquitetos e designers voltaram a eleger o ladrilho hidráulico como revestimento, ora em sua linguagem e funções originais, ora repaginadas ou ressignificadas. O ladrilho entrou na tendência “retrô” brasileira, as padronagens características dos ladrilhos (e azulejos portugueses), estenderam-se a produtos têxteis, papéis de parede, adesivos vinílicos, cerâmicas, porcelanatos e outros produtos de design, como objetos decorativos e de uso cotidiano (MACIEL, ENGLER, PINHO, 2020). O ladrilho hidráulico, de produto “moderno” beneficiado há um século pela Revolução Industrial, passou à “tradição”, com características artesanais, sinalizando a presença de um elemento singular do passado trazido para o contemporâneo (CAMPOS, 2011). Em Minas, os ladrilhos hidráulicos remetem ao interior colonial nas cidades históricas colonizadas pelos europeus. Trazem à memória as grandes cozinhas onde tradicionalmente se reuniam as famílias em torno da mesa, para a comida ou para os cafés tão arraigados à cultura mineira. Em Juiz de Fora, remetem ao mesmo tempo ao requinte e luxo dos tempos da “Princesinha de Minas”, com edificação dos primeiros prédios públicos da cidade, quanto à simplicidade dos tempos de infância dentro dos lares, casas de avós, escolas, igrejas, em interiores e fazendas. Os ladrilhos hidráulicos marcaram uma época de grande importância na cidade e ainda hoje tem representatividade. O artigo 216 da Constituição conceitua patrimônio cultural como sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (IPHAN). Os ladrilhos hidráulicos são elementos indissociáveis dos contextos social e cultural dos locais onde foram utilizados, portanto possuem significado e importância artística, cultural, documental e estética para a sociedade, e que por estas razões precisam ser preservados. O objeto de estudo se mostra abrangente, com diferentes possibilidades de abordagem — visto que envolve história, memória, arte, design, arquitetura, cidades, paisagem, identidade cultural e urbana. Neste trabalho, tem-se como foco a padronagem gráfica pelo olhar da arte e do design, trazendo vida ao projeto “Eu mandava ladrilhar”, uma série autoral de produtos realizados a partir de desenhos feitos à mão livre em nanquim com pintura em aquarela, que se apresentam como registro do processo de observação e pesquisa da artista; um compilado visual e, sobretudo, facilmente compreensível e tangível à sociedade. Desta maneira, atingindo o objetivo primordial do projeto, que é reavivar a memória da cidade de forma a democratizar o conhecimento e acesso ao patrimônio e à arte, deixando o material disponível ao público.

Figura 3 – Paginação real de parede e pisos de
alguns dos locais presentes na cidade de Juiz de Fora/MG visitados pela artista/arquiteta/autora.
Abaixo, a arte autoral digitalizada da original em aquarela e nanquim do módulo individual do
ladrilho hidráulico, inspirada no local apresentado, que serviram de base para a criação dos produtos. Fonte: fotos da autora.

Figura 4 – Projeto “Eu mandava ladrilhar” com exemplos de alguns dos produtos desenvolvidos pela artista/arquiteta/autora, tais como marcadores de página magnéticos, canecas, lenços de seda, blocos de nota, almofadas e imãs/porta-copos.

BECKER, A.W. e VUOLO, C. M. O mago dos ladrilhos hidráulicos. Pós: Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, v. 16, n. jun 2009, p. 27-32, 2009. Disponível em: <https://repositorio.usp.br/item/001776977 > Acesso em dezembro de 2025.

CAMPOS, C..Trajetória e Significado do Ladrilho Hidráulico em Belo Horizonte. 2011. 194f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura). Escola de Arquitetura Universidade Federal de Minas Gerais. <https://repositorio.ufmg.br/items/f3e680ef-b2ba-4354-a9c4-9b42318d8f17.&gt; Acesso em dezembro de 2025.

CASACOR Explica. Ladrilhos hidráulicos: conheça a história por trás desse revestimento. Publicado em 21 de mar. de 2025. Disponível em: <https://casacor.abril.com.br/pt-BR/noticias/casacor-explica/conheca-como-sao-produzidos-os-ladrilhos-hidraulicos&gt; Acesso em dezembro de 2025.

DOMINGUEZ, A; SANTOS, C. Tapetes em massa de cimento: ladrilhos hidráulicos em Pelotas. 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/Arte/article/viewFile/4927/3684&gt; Acesso em dezembro de 2025. IPATRIMÔNIO. Juiz de Fora – Antigas Instalações da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone. Publicado em 7 de agosto de 2021. Disponível em: <https://www.ipatrimonio.org/juiz-de-foraantigas-instalacoes-da-companhia-industrial-e-construtora-pantaleone-arcuri/#!/map=38329&loc=-21.753720270436403,-43.38565349578857,14&gt; Acesso em dezembro de 2025.

IPHAN. Patrimônio Cultural. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/218&gt; Acesso em dezembro de 2025.

LAMAS, M; LONGO, O; SOUZA, V. A produção de ladrilho e o ofício de ladrilhar: método de produção de ladrilhos do século XVIII aos nossos dias. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 26, p. e09, 2018. DOI: 10.1590/1982-02672018v26e09.
Disponível em: <https://revistas.usp.br/anaismp/article/view/148057&gt;.Acesso em dezembro de 2025.

MACIEL, R; ENGLER, R; PINHO, I. O design e os ladrilhos hidráulicos na cidade. Anais do Colóquio Internacional de Design, p. 1157-1170, 2020. OLIVEIRA, G. REQUALIFICAÇÃO DA SEDE DA COMPANHIA PANTALEONE ARCURI: Um Resgate à Memória Industrial de Juiz de Fora: UFJF, 2013.
Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/689907864/Monografia-UFJF-REQUALIFICACAO-DA-SEDE-DA-COMPANHIA-PANTALEONE-ARCURI-Um-resgate-a-memoria-industrial-de-Juiz-de-Fora&gt; Acesso emdezembro de 2025.UFJF/Arquivo Central. Apresentação – Fundo Pantaleone Arcuri. Disponível em: <https://www2.ufjf.br/arquivocentral/2021/08/07/apresentacao-fundo-pantaleone-arcuri/&gt; Acesso em dezembro de 2025.

Tarsila Palmieri

É tecnóloga em Design Moveleiro pelo IF Sudeste MG, bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Juiz de Fora e formada em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade Metodista Granbery. Artista visual autodidata, é brasileira, natural de Santos Dumont (MG), e reside em Juiz de Fora desde 1992.

Atuou por mais de 15 anos na área administrativa e, como arquiteta, trabalhou com Patrimônio Cultural, desenvolvendo dossiês de tombamento, projetos de revitalização e restauro. Na carreira artística, participou de diversas exposições, principalmente em Juiz de Fora, além de mostras coletivas internacionais.

É autora do livro de aquarelas Pontes do Paraibuna, publicado pela editora portuguesa Asas da Literatura, e coautora de Desenhando Sucesso, da editora Perensin. Em 2025, foi agraciada com o 20º Prêmio Amigos do Patrimônio. No mesmo ano, atuou como conselheira titular na cadeira de Artes Visuais, seguindo como suplente na gestão 2026/2027.

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