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Revista Casa D'Italia

Construção e Preservação da Paisagem Cultural em Juiz de Fora

Lina Malta Stephan
Fevereiro 2026, n°41 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais

Resumo: Em Juiz de Fora, Minas Gerais, a paisagem urbana é contemplada com mais de cento e setenta imóveis tombados, reconhecidos pelo seu valor histórico, arquitetônico e cultural. A maior parte desse acervo, ou seja, sessenta e cinco por cento, é composta por edificações que foram construídas com características do estilo eclético, em segundo lugar, prevalecem os imóveis com o estilo caracterizado pelas formas geométricas, o Art Déco, perfazendo, aproximadamente, vinte por cento dos imóveis tombados. A herança colonial e a neocolonial representam cinco por cento, enquanto a arquitetura modernista soma três por cento. Além desses estilos, encontram-se também são preservados exemplares da arquitetura industrial, referentes ao período em que a cidade era conhecida como “Manchester Mineira”. Ao se analisar a lista de bens tombados do município, observa-se a relevância da construtora Pantaleone Arcuri, responsável pela construção de grande parte do que é protegido como patrimônio cultural de Juiz e Fora.

 Palavras-chave: Paisagem Cultural. Companhia Pantaleone Arcuri. Preservação do Patrimônio Cultural.

Abstract: In Juiz de Fora, Minas Gerais, the urban landscape boasts over one hundred and seventy listed properties, recognized for their historical, architectural, and cultural value. The majority of this collection, sixty-five percent, is comprised of buildings constructed in the eclectic style. Secondly, buildings characterized by geometric forms, the Art Deco style, predominate, making up approximately twenty percent of the listed properties. Colonial and neo-colonial heritage represents five percent, while modernist architecture accounts for three percent. In addition to these styles, examples of industrial architecture are also preserved, dating from the period when the city was known as “Manchester of Minas Gerais.” Analyzing the list of listed properties in the municipality, the importance of the construction company Pantaleone Arcuri, responsible for the construction of a large part of what is protected as cultural heritage in Juiz de Fora, becomes apparent.

Key words: Cultural Landscape. Pantaleone Arcuri Company. Preservation of Cultural Heritage.

Riepilogo: A Juiz de Fora, nel Minas Gerais, il paesaggio urbano vanta oltre centosettanta immobili vincolati, riconosciuti per il loro valore storico, architettonico e culturale. La maggior parte di questa collezione, il sessantacinque percento, è composta da edifici costruiti in stile eclettico. In secondo luogo, predominano gli edifici caratterizzati da forme geometriche, in stile Art Déco, che costituiscono circa il venti percento degli immobili vincolati. Il patrimonio coloniale e neocoloniale rappresenta il cinque percento, mentre l’architettura modernista il tre percento. Oltre a questi stili, sono conservati anche esempi di architettura industriale, risalenti al periodo in cui la città era conosciuta come la “Manchester del Minas Gerais”. Analizzando l’elenco degli immobili vincolati nel comune, emerge l’importanza dell’impresa edile Pantaleone Arcuri, responsabile della costruzione di gran parte del patrimonio culturale protetto di Juiz de Fora.

 Parole chiave: Paesaggio Culturale. Azienda Pantaleone Arcuri. Conservazione del Patrimonio Culturale.

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A paisagem constituiu a representação cultural de um território e por meio dela e de seu patrimônio cultural preservado torna-se possível compreender a trajetória histórica de uma sociedade. É resultado dos remanescentes de diversas épocas, configurando-se, portanto, como herança de sucessivas gerações.

Os construtores da paisagem de Juiz de Fora:

O início da História de Juiz de Fora, assim como o de diversas cidades de Minas Gerais está diretamente relacionado com a mineração aurífera. Seu desenvolvimento vincula-se à abertura do caminho Novo, estrada construída para conectar o interior de Minas Gerais ao porto do Rio de Janeiro com o objetivo de facilitar o escoamento do ouro.  Ao longo de suas margens, eram criados diversos postos oficiais e registros para cobrança do quinto,  e assim, pequenos povoados foram surgindo, com a função de hospedar e de fornecer suprimentos, entre eles o arraial de Santo Antônio do Paraibuna, que deu origem, posteriormente à cidade de Juiz de Fora.

Nesse período, as construções seguiam os padrões das vilas tradicionais do interior de Minas Gerais com a predominância da arquitetura colonial. Enquanto nas cidades coloniais mineiras, a paisagem era marcada pelas edificações em taipa, revestidas e caiadas, em Juiz de Fora – já no final do século XIX e início do XX – observava um amplo uso do tijolo aparente, mesmo nas residências mais modestas. A abundância da argila às margens do Paraibuna permitia o uso da matéria-prima nas olarias e na construção das vilas operárias, dos palacetes da elite, dos colégios, das igrejas, dos edifícios comerciais e industriais e das chaminés. “Mesclavam um colorido avermelhado ao conjunto da cidade edificada; e sobressaiam-se.” (DURTE, 2016, p.38)

Um dos primeiros impactos no cenário colonial foi a introdução da arquitetura produzida pelos imigrantes alemães, que chegaram à região para trabalhar na construção da Estrada União e Indústria. Contribuíram de forma significativa para a  construção de  diversos edifícios na cidade.

A colônia de imigrantes alemães era composta por artesãos, operários, técnicos e agricultores que contribuíram para a o desenvolvimento da região. Duarte (p.22, 2016) descreveu as construções edificadas por esses imigrantes alemães: “Elas impactam pela tecnologia e grandiloquência arquitetônica.”

A partir das últimas décadas do século XIX, atraídos pelas oportunidades de trabalho nas indústrias têxteis e nas lavouras da região, os imigrantes italianos chegaram a Juiz de Fora e tiveram um papel importante para o desenvolvimento econômico da cidade e de toda a região.

Com o avanço do processo de urbanização, especialmente a partir das últimas décadas do século XIX, o mercado imobiliário de Juiz de Fora tornou-se uma significativa fonte de investimento, impulsionado pela crescente demanda por construções especializadas. Nesse período, a cidade vivenciou o apogeu da arquitetura Eclética que se desenvolveu na cidade de maneira singular, tendo como principal referência a construtora Pantaleone Arcuri.

Destacou-se de forma singular, a atuação de Raphael Arcuri, juiz-forano com formação profissional na Itália, pais de origem de seu pai, o construtor Pantaleone Arcuri. Ao longo de quase três décadas de trabalho, Raphael foi responsável pela construção de edificações significativas pela sua arquitetura. Nas palavras de Jardim (2016, p.12):

A figura de Rafael Arcuri se agiganta na criação desta cidade única, italiana, inglesa, alemã, americana, mineira, transformando-a, nesse período numa das mais belas cidades ecléticas brasileiras.

Raphael demonstrava grande diversidade na sua forma de conceber arquitetura, incorporando diversas manifestações estéticas, entre elas incluem os estilos: neogótico, eclético, Art nouveau e Art déco. Segundo Olender (2011, p.24):

E foi nesse concreto encontro, dentro da maior empresa construtora da região, entre estas novas tecnologias e materiais construtivos (telhas de cimento-amianto, ladrilhos hidráulicos, etc.) e as recentes manifestações estéticas e seus novos suportes de divulgação (álbuns, revistas e catálogos), que se pronunciou, pois, a própria arquitetura a ser desenvolvida por Raphael.

A construtora de Pantaleone Arcuri desempenhou papel fundamental na conformação da paisagem urbana de juiz de Fora, sendo responsável por um conjunto expressivo de edificações de diversos estilos arquitetônicos, que variava do eclético ao modernista.

A arquitetura modernista ganhou destaque na cidade com a atuação do engenheiro-arquiteto Arthur Arcuri. Seus projetos conciliaram a tradição da empresa fundada por seu pai e, ao mesmo tempo, promoviam um rompimento com as vertentes arquitetônicas produzidas até então. A arquitetura de Arthur materializou-se especialmente em seus projetos residenciais.

Todas as fases que contribuíram para a formação de uma ou várias paisagens ao longo da história de Juiz de Fora nos permitem compreender que a paisagem não apresenta algo estático, mas encontra-se em constante transformação. Como afirma Menezes (2002, p.37), “é como nossa pele, condenada a conservar cicatrizes e feridas antigas”.

A Preservação da Paisagem de Juiz de Fora:

A paisagem cultural de Juiz de Fora é contemplada com mais de cento e setenta imóveis tombados, que se destacam pelo seu valor histórico, arquitetônico e cultural cujos processos de tombamento tiveram início na década de 1980. Vale ressaltar que o tombamento é uma ferramenta para garantir a preservação, por meio de aplicação de legislação específica, a fim de evitar que os bens culturais que têm valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e afetivo para a população, venham a ser demolidos, destruídos ou descaracterizados.

Em Juiz de Fora, o tombamento municipal é regulamentado pela Lei 10.777, de 15 de julho de 2004, que prevê os instrumentos legais para a proteção do patrimônio material e imaterial. O município tem três bens tombados em nível federal: o Cine-Theatro Central, Marco Comemorativo do Centenário de Juiz de Fora e o acervo do Museu Mariano Procópio. Possui, ainda, bens tombados em nível estadual, como o Museu do Crédito Real e seu acervo; e três conjuntos paisagísticos parque, edificações e acervo do Museu Mariano Procópio; conjunto arquitetônico, paisagístico e acervo da Usina de Marmelos Zero e das Estações Ferroviárias (antigas estações da Central do Brasil e da Leopoldina, plataforma entre as estações, passarela sobre a linha férrea e o acervo do atual Museu Ferroviário de Juiz de Fora).

Para esta pesquisa foi realizado um levantamento em que foram consultados no acervo municipal do órgão responsável pela Preservação do Patrimônio,  os processos de tombamento de mais de cento e setenta imóveis tombados.

Identificou-se que os imóveis que foram construídos com estilo Eclético correspondem a 65% do patrimônio cultural tombado em nível municipal, enquanto o estilo Art Déco representa 21%. Já as edificações coloniais e com estilo neocolonial equivalem a 5%, o estilo modernista a 3% e os demais estilos, reunidos na categoria “outros”, equivalem a 1%. Nesta última categoria, incluem os exemplares da arquitetura industrial, associados ao período em que a cidade era conhecida como Manchester Mineira.

Conclusão

A maior parte desse acervo que compõe o patrimônio cultural da cidade é formada por edificações de estilo eclético, que representam aproximadamente sessenta e cinco por cento do total.

No cenário apresentado, é possível perceber a forte presença de edificações projetadas e construídas pelas empresas dos imigrantes italianos ou de seus descendentes, entre as quais se destaca a construtora Pantaleone Arcuri.

A importância dessa construtora torna-se evidente ao analisarmos a lista de bens tombados do município, uma vez que grande parte deles foi projetada ou executada pela família Arcuri.

A paisagem urbana de Juiz de Fora reúne uma variedade de estilos arquitetônicos que refletem as diversas fases de desenvolvimento da cidade.  As múltiplas formas de se conceber arquitetura, resultante dos gostos de cada época coexistem de maneira harmoniosa e integram o cotidiano da população juiz-forana.

DUARTE, Antônio Carlos. 2016. Arquitetura Eclética – Juiz de Fora. Juiz de Fora, Minas Gerais: FUNALFA.

 JARDIM, Rachel. 2016. O estilo repudiado. In: DUARTE, Antônio Carlos Arquitetura Eclética – Juiz de Fora. Juiz de Fora, Minas Gerais: FUNALFA.

MENEZES, Ulpiano Bezerra.2002. A paisagem com fato cultural. In: Yázigi, E. Turismo e paisagem. São Paulo, Brasil: Contexto.

OLENDER, Marcos. 2011. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora, Minas Gerais. Ed: UFJF.

Lina Malta Stephan

Arquiteta e Urbanista com mestrado em Ambiente Construído pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é servidora pública da Prefeitura de Juiz de Fora.

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