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Revista Casa D'Italia

Villa Iracema: o auge do Art Nouveau na obra de Raphael Arcuri

Milena Andreola de Souza
Fevereiro 2026, n°41 – ISSN: 2764-0841 | Juiz de Fora, Minas Gerais

Resumo: A Villa Iracema, projetada por Raphael Arcuri em Juiz de Fora, sintetiza a importância da arquitetura como expressão histórica e cultural, articulando a presença dos imigrantes italianos na formação da paisagem urbana e o auge do Art Nouveau na cidade. Construída em 1914, homenageou através de sua denominação duas mulheres, Olympia e Iracema, e tornou-se um ícone da arquitetura da cidade, produzindo tensões, encantamento e laços de pertencimento com a comunidade desde o seu tombamento até a restauração.

Palavras-chave: Villa Iracema. Raphael Arcuri. Art Nouveau

Abstract: A Villa Iracema, designed by Raphael Arcuri in Juiz de Fora, embodies the importance of architecture as a historical and cultural expression, linking the  presence of Italian immigrants to the shaping of the urban landscape and to the height of Art Nouveau in the city. Built in 1914, it pays tribute through its name to two women, Olympia and Iracema, and has become an icon of the city’s architecture, generating tensions, enchantment, and bonds of belonging with the community from its heritage listing to its restoration.

Key words: Villa Iracema. Raphael Arcuri. Art Nouveau

Riepilogo: La Villa Iracema, progettata da Raphael Arcuri a Juiz de Fora, sintetizza l’importanza dell’architettura come espressione storica e culturale, articolando la presenza degli immigrati italiani nella formazione del paesaggio urbano e l’apice dell’Art Nouveau in città. Costruita nel 1914, ha reso omaggio, attraverso la sua denominazione, a due donne, Olympia e Iracema, ed è diventata un’icona dell’architettura cittadina, generando tensioni, incanto e legami di appartenenza con la comunità dal suo vincolo di tutela fino al restauro.

Parole chiave: Villa Iracema. Raphael
Arcuri. Art Nouveau

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A arquitetura é, além da função de abrigo, a mais antiga forma de expressão concebida que nos permite compreender a história, os marcos sociais e econômicos, os gostos artísticos e, enfim, a cultura. Nesse sentido, Juiz de Fora é um palco onde encontramos exemplares marcantes de vários períodos arquitetônicos que reverenciam e são reverenciados pela memória.

A presença dos imigrantes italianos em Juiz de Fora atuando no campo da construção civil e da arquitetura contribuiu bastante para a formação da nossa paisagem urbana. Dentre eles, destacam-se de maneira especial Pantaleone Arcuri e seus filhos.

A Companhia Pantaleone Arcuri foi responsável pelas principais obras em Juiz de Fora no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, dentre elas o Parque Halfeld, as Repartições Municipais e o Cine Theatro Central, com a participação efetiva do arquiteto Raphael Arcuri nestas e em muitas outras realizações.

Dentre as várias residências projetadas por Arcuri, a Villa Iracema, construída na Rua Espírito Santo, centro de Juiz de Fora, destaca-se de maneira
especial e por diversos motivos. O primeiro é bastante claro e, praticamente, uma unanimidade: a beleza da edificação, que se reflete no claro gosto de Raphael pelo Art Nouveau, que inspirou os elementos arquitetônicos, como as varandas, gradis em ferro e coberturas, os elementos artísticos aplicados nas esquadrias e ornamentos em estuque da fachada.

Fonte: Acervo Carlos Eduardo Silva Gonçalves.
Blog “Maurício Resgatando o passado”

Segundo Olender (2011), em sua formação como arquiteto em Nápoles, Raphael Arcuri demonstrava um apreço pelo Art Nouveau em trabalhos que desenvolveu ali na época.

Ao retornar ao Brasil, experimentou alguns poucos elementos do estilo em edifícios ecléticos, por orientação do pai e dos clientes da Cia. Pantaleone Arcuri. Mas ao projetar residências para os novos ricos, industriais e comerciantes da cidade, consegue projetar edifícios com maior liberdade vanguardista, reflexo da industrialização e modernidade da época, como cita Argan (1992 apud Genovez, 1998, p. 25):

Do ponto de vista sociológico, o Art Nouveau é um fenômeno novo, imponente, complexo… Interessa a todos os países europeus e americanos onde se alcançou certo nível de desenvolvimento industrial. Instaura entre eles um regime cultural e de costumes quase uniforme, apesar das ligeiras variações locais, e de caráter explicitamente moderno e cosmopolita.

Reforça-se aí a compatibilidade do estilo à época, lugar e história da Villa Iracema.

A Villa Iracema no contexto histórico de Juiz de Fora

Curiosamente, a Villa não nasceu Iracema, mas Olympia. Em 1914, a senhora Olympia Peixoto contratou a Construtora Pantaleone Arcuri para construir a sua residência na Rua Espírito Santo, que na época estava sendo ocupada por fábricas e residências de pequenos industriais e comerciantes da cidade, confrontando-se com a riqueza dos casarões dos barões do café que ocupavam a Av. Rio Branco, antes denominada Rua
Direita.

Diferente do costume da época, a rica portuguesa homenageou a si própria, chamando a casa de Villa Olympia. A inauguração aconteceu oficialmente em 1918, chamando a atenção da sociedade por ser a primeira residência de Juiz de Fora a ter uma piscina na porção posterior do terreno.

Uma característica interessante da edificação é que ela é disposta em formato de L, abrindo a visada da sua varanda principal, coberta por bela estrutura de ferro e vidro, aos moldes das coberturas dos metrôs de Paris, para a diagonal esquerda do terreno. Hoje estranha-se esta conformação, visto que a varanda se posiciona para a edificação vizinha, mas na época, podia-se observar dali a Rua Quinze de Novembro, hoje Av. Getúlio Vargas e a Praça Antônio Carlos. É interessante perceber a intenção de se estabelecer uma maior comunicação do edifício com o entorno, mostrando a importância da paisagem urbana para o cotidiano das pessoas.

Dez anos após a construção, o imóvel foi alugado para o casal José Raphael e Iracema de Souza Antunes, que se encantaram e pouco tempo depois compraram a residência. A denominação da residência foi alterada de fato em 1943, quando o casal comemorou suas bodas de prata e o Sr. Raphael presenteou a esposa rebatizando a casa de Villa Iracema, nome que foi inscrito em ferro no alto da fachada principal, estampado ali até os dias atuais.

Do encantamento ao tombamento

Desde a sua construção até a época atual, a Villa Iracema encanta os transeuntes da Rua Espírito Santo, tornando-se mesmo um ícone da cidade. Tantas vezes ouve-se falar no edifício como o edifício tombado mais bonito da cidade.

Tal valor se confirmou com o seu tombamento, em 1999, solicitado pelo proprietário da época que, no entanto, solicitava a demolição da parte posterior do edifício, com a finalidade de abrir a parte posterior do terreno para a construção posterior de outro edifício.

A partir daí, todo o processo se tornou um grande imbróglio, com a impossibilidade da construção do edifício pretendido nos fundos, mudança de
proprietário, abandono e descaso com o edifício, que gerou um processo judicial e, finalmente, sob força da justiça, a restauração da Villa Iracema em 2021, tornando-se o Centro de Estudos do corpo clínico do Instituto Oncológico – Hospital 9 de Julho. O mais interessante da história, e que é mais um motivo que torna essa edificação tão especial, é a ansiedade da comunidade de Juiz de Fora de ver o seu bem mais belo devolvido em toda a sua integridade.

Fonte: Arquivo pessoal

A grande importância da Villa Iracema se mostra tanto na obra de Raphael Arcuri, quanto na preservação da memória arquitetônica de Juiz de Fora. Sua presença marcante se revela no imaginário das pessoas e na paisagem da cidade.

Genovez, Patrícia Falco. 1998. “Núcleo Histórico da Rua Espírito Santo: nota prévia de tombamento.” In Coleção História e Arquitetura, Clio Edições. Juiz de Fora: UFJF.

Olender, Marcos. 2011. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: Editora UFJF.

Prefeitura de Juiz de Fora, Divisão de Patrimônio Cultural, org. 2002. Guia dos Bens Tombados de Juiz de Fora. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura.

Prefeitura de Juiz de Fora. 1999. Decreto no 6.505, de 18 de agosto de 1999 – Tomba a Villa Iracema. Juiz de Fora.

Milena Andreola de Souza

Arquitetura e Urbanista pela UFJF e mestre em Arquitetura (História e Preservação do Patrimônio Cultural) pelo PROARQ/FAU/UFRJ. Foi presidente da OSCIP PERMEAR, atuou como consultora nas obrar de restauro do Museu Mariano Procópio e hoje é professora e coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Academia (UniAcademia)

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