1. Introdução
A trajetória arquitetônica de Raphael Arcuri ocupa um lugar singular na história urbana de Juiz de Fora. Entre as décadas de 1910 e 1940, sua produção acompanhou — e ajudou a moldar — a transformação da cidade em um centro de modernização regional, impulsionado pela economia, pela crescente vida urbana e pela intensa presença da imigração italiana (Olender, 2011). Formado sob repertórios europeus e sensível às linguagens estilísticas de seu tempo, Arcuri desenvolveu uma obra eclética, marcada pela combinação de influências do Art Nouveau, do Art Déco e de tradições construtivas trazidas da Itália.
Sua obra funciona como espelho da modernização urbana de Juiz de Fora, articulando estilo, cidade e patrimônio. Seus edifícios se imbricam à paisagem urbana, o que revelam sobre o imaginário de modernidade da época, deixando um legado para a memória e a preservação do patrimônio arquitetônico local.
2. Estilo, repertórios europeus e modernização urbana
Raphael Arcuri dialogou com diferentes linguagens que circulavam intensamente na Europa entre a virada do século e os anos 1930 (Santos; Souza, 2021).
O ecletismo, ainda dominante no início de sua atuação, forneceu-lhe um conjunto flexível de elementos ornamentais: frisos vegetais, cornijas destacadas, composições simétricas e tratamento expressivo das fachadas. Esse ecletismo se desdobrou, posteriormente, na incorporação de novos repertórios.
O Art Nouveau, com sua ênfase na organicidade, no movimento e na harmonia entre arquitetura e ornamentação, aparece em algumas de suas fachadas de forma sutil, especialmente no desenho das esquadrias, nos vitrais e no desenho de linhas curvas (Ferreira,2019).
Já o Art Déco, associado ao otimismo técnico e à modernidade geométrica dos anos 1920 e 1930, pode ser percebido em composições verticais, em elementos estilizados e em um tratamento mais racional das superfícies, configurando uma síntese rara na cidade.
Essa diversidade estilística dialoga diretamente com os processos de modernização vividos em Juiz de Fora: uma cidade que buscava atualizar sua imagem urbana, aproximando-se de modelos arquitetônicos internacionais.
É justamente nessa adaptação — e não na simples importação de linguagens — que reside o interesse crítico de sua obra. Arcuri reinterpretou estilos em função das expectativas locais, das possibilidades técnicas e do imaginário urbano que emergia com o avanço da industrialização e da vida cultural (Moreira, 2017). Seus edifícios tornaram-se sinais da modernidade possível, equilibrando inovação estética e permanências formais.
3. Cidade e paisagem urbana: a inserção das obras de Arcuri
As obras de Arcuri não se destacam apenas pela linguagem estilística, mas também pela forma como ocupam o território urbano. Muitas delas situam-se em eixos centrais da cidade, reforçando a visibilidade e a presença simbólica da arquitetura na vivência cotidiana (Moreira, 2017).
A inserção desses edifícios — em esquinas estratégicas, vias de circulação e áreas de grande fluxo — revela a articulação entre arquitetura e urbanismo. Seus projetos contribuem para desenhar frentes urbanas, marcar vizinhanças e produzir referências espaciais e simbólicas que permanecem até hoje (Santos; Souza, 2021).
A Casa D’Italia, por exemplo, não é apenas um edifício representativo do diálogo ítalo-brasileiro, mas também um marco urbano inserido em um dos principais corredores modernos da cidade.
Do mesmo modo, outras obras atribuídas ao arquiteto — ainda que não oficialmente registradas como de sua autoria — desempenham papel semelhante na construção de uma paisagem contínua, coerente e reconhecível (Olender, 2014).
Nesse sentido, Arcuri não é apenas autor de edifícios: é coautor de uma paisagem urbana que expressa a modernização da cidade e ajuda a contar sua história.
4. Patrimônio e legado: obras preservadas, usos atuais e ameaças
A atualidade das obras de Arcuri oferece um campo fértil para refletir sobre preservação e patrimônio cultural. Diversos edifícios vinculados ao arquiteto permanecem em uso, outros foram tombados, enquanto alguns enfrentam transformações, descaracterizações ou abandono.
A análise desse conjunto permite compreender:
● quais edificações resistiram como referências urbanas;
● quais receberam proteção formal (tombamento municipal ou estadual);
● quais estão em risco e por quê;
● como a cidade lida com seu próprio passado arquitetônico;
● quais são os limites institucionais e econômicos da preservação local
(Benhamou, 2007).
Assim, o legado de Arcuri se torna também um espelho dos desafios contemporâneos da política de patrimônio. Suas obras — marcadas por qualidade estética e valor histórico — revelam tanto conquistas quanto fragilidades das práticas de conservação urbana em Juiz de Fora, especialmente no que se refere ao diálogo entre memória coletiva e uso contemporâneo.
5. Conclusão
A obra de Raphael Arcuri constitui um capítulo fundamental da história urbana e arquitetônica de Juiz de Fora. Seus edifícios refletem o momento de modernização da cidade, revelando como repertórios europeus foram reinterpretados localmente, incorporados ao cotidiano urbano e convertidos em símbolos de identidade.
Ao analisar seu legado como elemento de modernização, este artigo evidencia que Arcuri não apenas projetou edifícios: ajudou a tecer a paisagem material e simbólica da cidade. Sua obra continua a provocar questões essenciais sobre memória, patrimônio e futuro — questões indispensáveis para repensar o papel da arquitetura na construção das cidades brasileiras.
A preservação de suas obras é, portanto, uma tarefa indispensável para que Juiz de Fora continue afirmando sua memória, sua singularidade e sua capacidade de projetar ao futuro as referências que moldaram sua trajetória histórica.
BENHAMOU, Françoise. 2007. Economia do patrimônio cultural. São Paulo: Estação Liberdade. FERREIRA, Tadeu F.. 2019. Composição arquitetônica de Raphael Arcuri: estudos dos
elementos do Art Nouveau na arquitetura eclética de Juiz de Fora (1913–1930). Revista Atena, [S.l.], v. 4, n. 3.
MOREIRA, A. C. G. 2017. O Castelinho dos Bracher: herança arquitetônica e artística em Juiz de Fora. 2017. Dissertação (Mestrado em Ambiente Construído) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora.
OLENDER, Marcos. 2014. A contribuição da imigração italiana na consolidação da paisagem urbana de Juiz de Fora. In: COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO, 3. Belo Horizonte. Anais […]. Belo Horizonte: [s.n.], 2014.
OLENDER, Marcos. 2011. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica as tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri. Juiz de Fora: Editora UFJF.
SANTOS, Letícia. R.; SOUZA, Milena. A. 2021. O complexo arquitetônico projetado por Raphael Arcuri: relação de identificação através do contexto histórico. Artigos em
Tecnologias da Informação e Comunicação em Arquitetura e Urbanismo, Juiz de Fora.
Professora doutora em Arquitetura e Urbanismo, chefe do Departamento de Projeto, História e Teoria em Arquitetura e Urbanismo (DPHT/UFJF). Pesquisadora, vice-líder do Laboratório da Paisagem (LAPASA/UFJF CNPq), onde coordena o Entrelugares – Grupo de Estudos em Patrimônio Cultural: Entre disputas e esquecimentos. Colaboradora da Arquidiocese de Juiz de Fora, com atuação junto a ações de preservação, documentação e valorização do patrimônio cultural. Suas áreas de interesse e atuação incluem história e teoria da arquitetura e do urbanismo, antiga e medieval, arquitetura sacra, patrimônio cultural, paisagem, projeto e restauração de bens arquitetônicos, técnicas e materiais históricos e gestão do patrimônio.
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